segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Pequeno orgulho


Duas bailarinas no palco (1874), Edgar Degas.

Minha petit jolie trocou de escola. E hoje foi seu primeiro dia de aula. Estava eufórica, não conseguia controlar sua ansiedade. Ansiedade para conhecer a nova escola, os novos companheiros, as novas atividades. Foi engraçado. Engraçado não é a palavra correta. Na verdade eu nem tenho uma palavra certa para exprimir o que senti. Na verdade não era bem o início. Hoje era o dia do teste que faria para verificação do seu nivelamento. Imaginem...minha boneca já tem até um currículo. E neste já conta uma apresentação no teatro. Mas a professora argumentou que as escolas possuíam métodos diferentes. E era até possivel que a minha pequenina retornasse para o primeiro nível. E ver a minha pequenina se esforçando para se sair bem em um teste foi de apertar o coração. Não aquele aperto de tristeza. Mas é um sentimento puro de mãe. Uma alegria misturada com orgulho de ver aquele pequeno ser que saiu de dentro de você agora desbravando o mundo, enfrentando as situações da vida: sozinha. Eu a via de longe. E a cada gesto, a cada passo mal dado eu me perdia entre sorrisos e lágrimas tolas. Porque só os filhos tem essa capacidade de nos deixar bobos. E o pior, temos orgulho de nos sentirmos bobos.
É. Aquela velha propaganda televisiva tem razão: certas coisas na vida... não têm preço!
Continue reading...

sábado, 16 de janeiro de 2010

Conselhos de Madame (II)


Sabe uma coisa que não me agrada? Bancar a conselheira sentimental. Tenho que admitir: sou péééssima conselheira.Porque ninguém quer escutar a minha opinião "verdadeira". Elas querem que eu diga o que elas querem ouvir, ou seja, aquelas velhas tolices piegas do tipo "vá em frente, não desista do seu amor", "Conquiste, custe o que custar", blábláblá...Eu não tenho estômago pra isso, me desculpe! Não gosto de joguinhos estúpidos de sedução. Porque pra mim a coisa tem que funcionar da seguinte maneira: tem que rolar aquele lance da empatia, sabe? Eu gostei te ti, tu gostate de mim. O resto é tolerâcia. Eu tolero teus resmungos, tu toleras minhas chatices. Porém, há sempre quem prefira viver às turras com o companheiro. Não é o meu caso. Se esse for o seu, fazer o quê né?

Tá bom. Por que que eu tô falando disso né? É que outro dia uma amiga veio compartilhar comigo mais uma de suas frustrações amorosas. Narrava ela que havia conhecido um dito cujo há cerca de um mês (pois é, um mês!). Segundo a própria, não era nada muito sério, a princípio. Contou-me que ele havia rompido um relacionamneto de 5 anos (nem me lebro mais ao certo...) chegando ela inclusive, a aconselhá-lo a conversar de novo com a moça e tentar uma possível reconciliação. Segundo ela, o dito recusou. E continuaram então levando a história que, se eu soubesse disso antes já sabia aonde daria. Fato é que passado um tempinho (lembra? Mais ou menos um mês) o dito voltou com a dita, não precisando mais do ombro , dos conselhos e otras cositas más da dita amiga.

Tá tudo bem, cadê a novidade né? Nenhuma porra! Eu também achei uma história extremamente banal. Mas a amiga estava como ela mesma se definiu, "se sentindo o último biscoito do pacote". Sabe aquele que quando não queremos mais jogamos fora? Pois é. Mas tudo não passara de orgulho ferido. A própria dizia não "gostar tanto assim" do fulano. Mas o seu ego pedia, implorava para que aquele dito cujo esquecesse a outra e se apaixonasse por ela.
O que eu quero dizer? Quero dizer que o ser humano é que nem cachorro. Nunca quer largar o osso. No caso descrito, nenhum dos dois queria se desfazer do seu ossinho. Ele não a largaria enquanto ela lhe fosse necessária. Ela massageava seu ego acreditando que poderia conquistá-lo.

Desculpe querida! A minha intenção não é tripudiar em cima da sua ferida que eu sei como deve estar doendo. Mas a minha avó sempre dizia que remédio bom é remédio que arde. Logo, logo sara. E você estará pronta para outra e mais outra e mais outra. Até aprender a não se machucar mais. A vida é curta demais para se perder com lamentações. Não deu, não deu. Vira aprendizado. Caiu? Levanta, põe band-aid e segue em frente.
Continue reading...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Entre Ladies e Madames


Geeeenteeeem, essa minha avidez por novidades (as vezes não tão novas assim!) está rendendo bons frutos. Achei um tesouro. Eu o descobri através do blog da Chata. Trata-se de uma cantora belga que atende pelo nome de Lady Linn (a identificação com o nome foi imediata). Quando escutei, me apaixonei. Amor à primeira vista, ou melhor, escutada. Ela tem uma batida gostosa que nos faz viajar aos idos anos 50/60. Junto com uma banda denominada Her Magnificient Seven ela faz um som combinando soul a uma levada bem jazzistica. O resultado é essa gostosura ai. Reparem só no jeitão da moça, um charme!




As faixas de seu mais recente álbum são recheadas de belas canções. Uma melhor que a outra. Há um destaque para uma deliciosa versão feita com um clássico dos "anos 80", I Don´t Wanna Dance. Reparem só!





Continue reading...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Homenagem do dia: Penélope Cruz



Porque ela é muito mais do que linda. Ela tem charme, tem talento, aquela coisa de 'sou uma diva', sabe? E ainda de quebra namora o nada menos charmoso, Javier Bardem. Ai que inveeeeeeja!
Continue reading...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A arte de ser feliz*


Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.

Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crianças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como reflectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles



Continue reading...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Versos de Orgulho* (ou seria da modéstia??)



O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém.

Porque o meu Reino fica para além …
Porque trago no olhar os vastos céus
E os oiros e clarões são todos meus !
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém !

O mundo ? O que é o mundo, ó meu Amor ?
O jardim dos meus versos todo em flor…
A seara dos teus beijos, pão bendito…

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços…
São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.

* Florbela Espanca, Charneca em Flor, Poemas.

Continue reading...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Felicidade Clandestina*


Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser. ”Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse ” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

*Clarice Lispector, Felicidade clandestina, Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
Continue reading...
 

Coisas de Madame... Copyright © 2009 Cosmetic Girl Designed by Ipietoon | In Collaboration with FIFA
Girl Illustration Copyrighted to Dapino Colada